Inicio de noite estrelada, mas sem luar, final do inverno que, agora, mais parece primavera. Calor e o aroma doce e enjoativo das flores. Em uma cidade cujo título é “Cidade das Rosas” – grande discrepância! – em um bairro afastado do centro da cidade e das indústrias, ouve-se apenas os grilos cric cric, os cachorros au au e um cansativo tec tec. Em uma casa de alvenaria verde, na esquina, uma casa que ainda levará 24 anos, 5 meses e 12 dias para ser pago o seu financiamento, Seu Antônio de bermuda e sem camisa, sentado em um banquinho de madeira, corta as unhas do pé tec tec. No rádio ao seu lado, pode se ouvir agora, uma voz aveludada e solene que diz: “Eu vou lutar por você para vereadora vote Maria da Silva, meu número é 24512. Por uma Cidade das Rosas mais viva, com mais indústrias e opções de financiamento”.
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos…
(Legião Urbana)
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Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos;
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
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Após o surgimento da sociedade capitalista, da produção em série devido as indústrias, da vida nas grandes cidades, da moda e da publicidade, o consumo deixou de ser uma prática, em sua maioria, de subsistência e passou a ser uma patologia social. As pessoas vivem para o consumo, trabalham para comprar o último celular lançado ou o jeans da moda.
Hoje a mídia, a moda e a publicidade representam as maiores influências para os consumidores. Muitos, ou todos, consomem o que é ditado pelo mercado ou o que a personagem da novela das oito estava usando ontem, sem levar muito em questão a necessidade de tal produto para a sua vida. O capitalismo impõe necessidades para os consumidores. Há um tempo atrás ninguém sabia o que era um celular, mas hoje é praticamente impossível imaginarmos nossas vidas sem um telefone móvel.
A propaganda trabalha numa tentativa de singularizar o indivíduo, com slogans do tipo “Para quem é especial como você”. Entretanto, o produto que eles anunciam pertence a uma produção em massa, não é único, e assim todos se vestem iguais e usam o mesmo produto, chegando, muitas vezes, a anular a própria individualidade: o ser humano se encaixa em tribos.
O que se consome é uma forma de diferenciação e reconhecimento entre os seres humanos. Funciona como um divisor: as pessoas se relacionam com quem elas se identificam e essa identificação se dá através do modo como uma pessoa está vestida e o que ela consome. O consumo se torna uma espécie de marca de um individuo. Por exemplo: quem usa determinado tênis é uma pessoa despojada e não vai muito com a cara de quem usa um sapato de salto alto.
O consumo desenfreado já é uma cultura de nossa sociedade, tanto que há tempos se fala na chamada sociedade de consumo. Assim, vivemos para consumir. Comumente vemos uma inversão do ser e do ter. Os bens materiais se tornam mais importantes em uma pessoa. A partir de determinados produtos, ganha-se status social, um lugar em determinado grupo e se constrói uma imagem/identidade perante a sociedade. Mais do que ter, é necessário com isso,parecer ter. Hoje o mercado que mais cresce é o do da pirataria. Quem não tem dinheiro para comprar uma bolsa Louis Vuitton ou um tênis Adidas, compra no camelô uma cópia barata para parecer ter o que não tem e garantir estar na moda.
A mercadoria, hoje, é tão importante que chega a ser determinante em alguns casos. Hoje um carro não serve mais só como um meio de transporte, mas também é fundamental para alguns homens, especialmente, conseguirem se relacionar, “arranjar uma namorada”. Isso dá a impressão que a pessoa só é o que é por causa de uma mercadoria. Muitas vezes o contrário também acontece: a pessoa se constrói a partir do que consome. Se eu ouço um tipo de música X, devo ser assim e assado e não posso ser amigo de quem ouve outro tipo de música. O consumismo chega a ser uma ideologia: há quem se paute pelo que consome e além de consumir é consumido.
Se não fosse a vontade de comprar o carro do ano, não trabalharíamos tanto. A busca por bens materiais leva a modos de conseguir dinheiro, como moeda de troca, seja através do trabalho ou até mesmo do roubo. Sim, o consumismo desacerbado pode gerar violência e graves problemas psicológicos para os indivíduos. A falta de determinado produto chega a trazer depressão e algumas pessoas somente se sentem realizadas e inseridas dentro da sociedade possuindo determinado produto. E outras quando estão com algum problema em suas vidas fazem a terapia do shopping, ou seja, o consumo traz tanta realização que chega a ser reconfortante e de extrema necessidade.
Além de problemas individuais, o consumo em exagero tem reflexos mundiais. O lixo é um desses problemas. Atualmente toneladas de lixo são produzidas no mundo e não possuem encaminhamento correto. Além disso, consumimos recursos naturais fundamentais para nossa sobrevivência em demasia. São litros e mais litros de água usados para a fabricação de um simples produto, sem falar no desmatamento de florestas e da poluição produzida pelas indústrias.
O consumo não é um vilão, mas do modo como acontece hoje chega a ser. Chegamos a viver para o consumo de produtos que não necessitamos, julgamos as pessoas pelo modo como estão vestidas, conversamos sobre roupas e seus respectivos preços, estamos sempre atentos Às novidades do mercado e não paramos para pensar como algumas situações e atos consumistas são tão influentes, prejudiciais e até mesmo cômicos em nossas vidas. Afinal, quem é que troca de celular de seis em seis meses ou paga por um vestido cinco mil reais? Pode ter certeza que não é só quem tem dinheiro para pagar por isso.
Todos nós necessitamos consumir. Entretanto excessos deveriam ser evitados, especialmente quando chegamos ao ponto de perguntar: eu consumo o que sou ou eu sou o que consumo?
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Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século, a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade
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” No fundo… bem no fundo, todos nós vivemos irremediavelmente solitários. Não há compreesão possível… entre as criaturas…”
(Caminhos Cruzados, Érico Verissimo)
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Esse filme merece muito a pena ser visto!![]()
Uma história de amor e perdão com Edward Norton e Naomi Watts. E nem pensem que é mais um daqueles melas norte-americanos. O filme possui uma maestria sensacional de imagens, roteirização e fotografia. O roteiro é baseado em um livro de W. Somerset Maugham ( quem honestamente eu não sei quem é) e também retrata um pouco da sociedade na década de 20, incluindo as relações socias, um casamento por conveniência, traição e os horrores vividos por causa de uma epidemia de cólera.![]()
Os personagens são muito bem construidos, possuem identidades marcantes e os atores os interpretam com excelência.
Enfim, eu poderia dizer muitas coisas, mas prefiro dizer somente: assitam!!!
E aqui eu não poderia deixar de falar da música final do filme. Uma canção infantil cantada em francês. Eu não entendo muito bem francês, mas a Suzi prometeu que vai me ensinar a cantar… hehehehehe.
Fiquem com a letra e com a canção nas cenas finais de The Painted Veil:
(vocês já perceberam que só tem vídeo do you tube nesse blog?)
A la claire fontaine
A la claire fontaine
M’en allant promener
J’ai trouvé l’eau si belle
Que je m’y suis baignée
Il y a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai
Sous les feuilles d’un chêne
Je me suis fait sécher
Sur la plus haute branche
Un rossignol chantait
Il y a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai
Chante rossignol, chante
Toi qui as le cœur gai
Tu as le cœur à rire
Moi je l’ai à pleurer
Il y a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai
J’ai perdu mon ami
Sans l’avoir mérité
Pour un bouquet de roses
Que je lui refusai
Il y a longtemps que je t’aime
Jamais je ne t’oublierai
Je voudrais que la rose
Fût encore au rosier
Et que mon ami Pierre
Fût encore à m’aimer
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Ela acordou mais tarde esta manhã e “decidiu” chegar atrasada na aula, uma aula muito chata. Tomou um banho quente, lavou duas vezes seu cabelo comprido, castanho e liso. Comeu uma maça sem casca, tomou um chá gelado e colocou seu all star azul para caminhar uma quadra até o ponto de ônibus. Onde, para esquecer seus pensamentos neuróticos e doentios começou a ler.
A ler na última edição da Bravo! Guimarães Rosa narrando a Segunda Guerra Mundial. Os bombardeios, as mortes, os soldados, o cenário de terror. Isso a fez esquecer suas neuroses, mas logo ela foi acordada por uma senhora de blusa laranja, que se levanta e pergunta:
- Essa lotação é Cristo Rei? É que eu não sei ler.
Ela responde afirmativamente com a cabeça. a senhora entra calmamente no ônibus e ela começa a pensar sobre o fato, que talvez não diga nada e talvez diga tudo. Mas, com certeza, ela ficou ainda mais neurótica e não prestou atenção na aula chata.
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